terça-feira, 8 de setembro de 2015

Adeus, Bigode, pioneiro do surf em família

Alexandre "Bigode" Salazar e Picuruta Salazar, lendas do surf santista. Foto: Almasurf

Por Fábio Maradei
O surf brasileiro perdeu nesta terça-feira (8 de setembro) um de seus precursores. Pai dos lendários Almir e Picuruta, Alexandre Salazar, o Bigode, faleceu aos 81 anos, vítima de insuficiência respiratória, causada por um câncer no pulmão, que vinha tratando desde janeiro. O que ficará a todos os surfistas da “velha guarda”, além da saudade, é o sentimento de orgulho de um homem que ajudou a desenvolver o surf no Estado, no Brasil, com iniciativa, vontade, determinação.

Seu corpo está sendo velado no salão Imperial da Memorial Necrópole Ecumênica, no bairro do Marapé, em Santos, e o sepultamento será nesta quarta-feira (9), às 9 horas.

Mais do que apenas um pai de três grandes surfistas (Lequinho faleceu em 1987), que iniciaram uma trajetória profissional numa época que o esporte ainda era marginalizado, Bigode foi o primeiro empresário, manager, assessor de imprensa.

Acreditou a fundo no potencial dos três filhos. Deu a primeira prancha em 1968. Quando percebeu que eles não seguiriam nos estudos, tomou uma decisão, vislumbrando uma carreira. “Meu pai foi muito importante na vida da família Salazar. Todo aquele início, aquela autorização de um pai acreditar nos filhos, partiu dele. Desde a primeira prancha, um longboard muito velho, foi tudo iniciativa dele. Começamos a abandonar o colégio muito cedo e ele falou: Já que vocês querem ser surfistas, vão ser de verdade. Quero ver vocês ganhando. E começou a acompanhar a gente”, revelou Almir Salazar.

E a partir daí, surgiu um pai atuante, determinante para que os filhos se tornassem verdadeiros campeões. Picuruta se tornou um recordista de títulos, um ídolo. Almir não só um excelente competidor e vencedor, como grande shaper. ”Comecei a desenvolver pranchas no quintal e ele montou uma oficina no fundo da casa, construindo um barracão. Meu pai sempre incentivava”, disse Almir Salazar.

Ainda nos anos 70, quando o surf ainda “engatinhava” e muitos torciam o nariz para os jovens que viviam nas praias, fez contatos com os jornais para ganhar espaço editorial e mostrar o que seus filhos faziam de melhor. Como o surf ainda não tinha penetração na mídia, ele ficava responsável por captar as informações e levar pessoalmente às redações.  “Meu pai sempre com aquela pastinha embaixo do braço. Os repórteres não iam na praia e falavam para ele, vai lá e traz tudo mastigado. E ele fazia tudo”, contou Picuruta.

“Começou no Cidade de Santos, colocando a gente do lado da coluna policial. Era o único espaço que tinha, mas a gente saia. Depois, fez amizade com o Senhor Roberto (Mario Santini), pai do Robertinho (Clemente Santini) e A Tribuna começou a dar espaço para o surf. As primeiras colunas de surf foram através do meu pai. Isso tudo fez com que aquela geração dos anos 80 começasse a acreditar no surf. A nossa família foi a que mais se desenvolveu em marketing. Ele já pensava nisso”, acrescentou.

Com as matérias, seguia atrás de patrocinadores para os filhos. E o trabalho não parava por aí. Acompanhava-os nas competições, orientando e fazendo o papel de manager. “Ele sempre estava com nossos currículos e nos ensinava como competir, como se portar. A postura nas matérias. Ele controlava a gente e respeitávamos muito”, lembrou Almir, com quem Bigode estava morando nesses últimos meses de tratamento.

Os ensinamentos do velho Bigode transpuseram a geração dos filhos, chegando aos netos. Leco, filho de Picuruta, foi campeão mundial de stand up paddle wave. Matheus, o outro filho, também foi o melhor do País na mesma modalidade.

Mais do que só ensinamentos e incentivo aos filhos, Bigode era conhecido por seu “grande coração”, ajudando a todos, e também por seu bom humor, características herdadas por Picuruta, sempre tirando “sarro” de todos e pronto a ajudar quem precisar.

Picuruta, que está nas Maldivas, a trabalho, lamentou muito a perda do pai. “Ele foi muito importante não só para a família, mas para o surf. Ele sempre estava preocupado em ajudar todos. Lembro bem dele junto, nos orientando, dando força. E quando viajávamos, mostrava que existia surf em São Paulo”, recordou. “Foi um grande homem, nos ensinou a ser vencedores, no esporte, na vida”, complementou.

Mesmo de longe, Picuruta e também seu filho Matheus, que mora no Havaí, e os filhos de Almir, Christian e Fabrício, que vivem em Portugal, tiveram a chance de se despedir de Bigode graças a tecnologia. Na Memorial, o velório pode ser transmitido ao vivo pela internet, para que parentes e amigos afastados façam a última saudação.

Amigo da família há décadas, o diretor-presidente da TV Tribuna e criador do A Tribuna de Surf Colegial, Roberto Clemente Santini, destacou a importância de Bigode na trajetória da família. “Ele foi um batalhador, criou os filhos sozinho, acreditou no sonho de serem surfistas em uma época que o esporte não tinha força. Era uma pessoa simples, que conversava com meu pai e sempre fazia questão de dizer do apoio do Grupo A Tribuna aos seus filhos”, afirmou.

Juiz de surf desde 1981, Sérgio Gadelha também ressaltou a importância de Alexandre Salazar no esporte. “Ele era um conselheiro, sempre com incentivo, não só aos três filhos, mas a todos”, contou. Criador da Escola de Surf Radical de Santos, Marcello Árias, sintetizou bem quem foi Bigode. “Hoje, a maioria dos surfistas profissionais bem sucedidos, Mick Fanning, Gabriel Medina, Filipe Toledo, está com a família na praia. O Bigode foi o precursor, acompanhando a molecada em qualquer lugar, sendo manager, mas acima de tudo um grande pai, porque apoiar os filhos naquela época, num esporte que era tão marginalizado, era para poucos. Foi um super homem”.

Nos últimos 30 anos, depois da morte de Lequinho, Bigode vivia na Guarda do Embaú, no litoral catarinense. Lá, também fez muito pelo esporte. “Ele criou o Salva Surf”, falou Almir. Mas se criou grandes campeões nas ondas, nunca surfou. Nem mesmo entrava no mar. “Ele tinha um problema no tímpano, que nunca tratou. A única vez que vi entrar no mar, foi num campeonato em Peruíbe, em 1979, que um paraquedista caiu e ele quis resgatar”, comentou.

Alexandre Salazar deixa dois filhos, Almir (casado com Tenyle), 57 anos, e Picuruta (casado com Karim), 55, e os netos Caio, 30, Leco (casado com Caroline), 27, Matheus (casado com Karoline), 22, (filhos de Picuruta), Christian, 22, Fabrício, 20, Mariana, 12, e Almir, seis anos (filhos de Almir). Bigode foi vencido pelo câncer, mas deixou um legado que enriqueceu e fortaleceu a história do surf brasileiro.

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